poesia: elogio aos pés

Porque suportam todo o peso
Porque sabem se manter sobre apoios e pilares mínimos
Porque sabem correr sobre recifes, e que nem mesmo os cavalos fazem
Porque nos levam embora
Porque são a parte mais aprisionada de um corpo encarcerado.
E quem sai depois de muitos anos deve novamente aprender a caminhar em linha reta
Porque sabem saltar, e não é culpa deles se, mais acima no esqueleto, não há asas
Porque descalços são belos
Porque sabem plantar-se no meio da rua como mulas e funcionar como cerca viva diante do portão de uma fábrica
Porque sabem jogar bola e nadar
Porque, para qualquer povo prático, eram unidade de medida
Porque os das mulheres douravam nos versos de Pushkin
Porque os antigos os amavam e como primeira demonstração de hospitalidade lavavam os dos viajantes
Porque sabem orar balançando-se diante de um muro ou curvados atrás de um genuflexório
Porque jamais entenderei como podem correr confiando em um único apoio
Porque são alegres e sabem dançar um maravilhosos tango, o crocante sapateado, a rufiona tarantela
Porque não sabem fungar e não impunham armas
Porque foram crucificados
Porque, até quando se quer alojá-los nos fundilhos de alguém, surge o escrúpulo de que o alvo pode não merecer tal suporte
Porque, como as cabras amam o sal
Porque não têm pressa de nascer, mas, depois, quando chega a hora de morrer, em nome do corpo saem aos pontapés contra a morte.

Erri De Luca
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